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Manaus, 07 de setembro de 2010
Crônicas
CARATÊ ZECA-KID II
João Batista Gomes
Caratê Zeca-Kid II

Quando Agenor chega a casa, Zeca-Gavião já o espera.

— Que papelão, professor! Que papelão!

— Concordo com você, Zeca. Que papelão o seu. Estou decepcionado. Aliás, muitas pessoas estão desapontadas com a palhaçada que você fez.

— Você decepcionado? Essa é boa! Eu pago o maior mico por sua causa, e você se sente frustrado? Imagine-se no meu lugar, professor.

— Isso não, Zeca. Imaginar-me executando aquela dança à frente de toda aquela gente? Foi a coisa mais ridícula que já presenciei. Ridícula e hilária. De onde você tirou aquele ritual, Zeca?

— Freqüentei, quando adolescente, um curso de defesa pessoal semelhante ao caratê. Chama-se tae kwon do. É uma arte marcial coreana. Significa caminho do punho cerrado.

— Acho que o nome correto para o ritual que você exibiu é “sai que eu dou”. Ou então “ai que eu dou”. Aquele grito efeminado no fim...

— E você queria que eu fizesse o quê? Até nome de federação você inventou: “Sou proibido pela FLIC — Federação dos Lutadores Internacionais de Caratê...”

— E por que você não desistiu, criatura? Fiquei surpreso quando você iniciou aquela dança.

— Fiquei empolgado. Essa é a verdade. A veracidade com que você me apresentou... Aqueles aplausos... Por um momento, virei um astro.

— Astro não, Zeca. Estrela.

— E estrela candente: minha ascensão durou pouco.

— Candente não, Zeca. Estrela cadente.

— E não é a mesma coisa não, professor?

— Cadente é aquilo que cai ou está caindo; combina com estrela e, portanto, com você. Candente é o que está em brasa.

— Agora me responda, professor. De onde você tirou a idéia de que sei lutar caratê? Pior: desde quando você é professor de caratê?

— Muita gente, aqui no bairro, sabe... melhor, pensa que sou professor de caratê.

— Sei que todos o chamam de professor...

— Pois é. Certa vez, num fim de semana, enquanto comprava refrigerante em um barzinho lotado aqui do bairro, alguém quis matar a curiosidade e me perguntou: “Desculpe a indiscreção...”

— Indiscreção? Não seria “Desculpe-me a indiscrição”?

— Estou representando a fala do sujeito lá do barzinho, Zeca. Você não quer que ele fale tudo corretamente. Ou quer?

— Tudo bem. Continue.

— Pois é. O indivíduo perguntou: “Você é professor de quê?” Impulsivamente, respondi: “De caratê”. Todos me olharam com desconfiança e admiração. Esta afugentou aquela quando...

— Esta? Aquela? Que linguagem esquisita é essa? Você não está escrevendo: está falando.

— A admiração afugentou a desconfiança quando um outro sujeito perguntou: “Vem cá, professor. Não me queira mal, mas esse negócio de lutar caratê dá dinheiro? Vejo que você... perdão, o senhor, tem carro, sítio...” Respondi que, no meu caso, a grana vinha principalmente de alguns prêmios internacionais. Vendo que a platéia me tributava respeito, fiz algo análogo ao que você fez na feira.

— Começou a executar uma dança de exibição.

— Não, não, Zeca. Algo pior.

— Já sei: saiu correndo do barzinho.

— Pior que isso: empolguei-me e espichei a mentira. Falei de prêmios conquistados no Brasil, nos Estados Unidos, no Japão...

— No Japão? Você ganhando campeonato de caratê no Japão?

— Pois é, Zeca. A que ponto nos leva a vanglória.

— Vanglória? Isso é o quê? Marca de cachaça?

— Vanglória é vaidade exagerada, Zeca.

— E depois, professor? O que aconteceu?

— A notícia espalhou-se pelo bairro. As pessoas passaram a me olhar com temor e respeito. Os assaltantes passaram a evitar-me. De certa forma, saí lucrando.

— Ninguém o desafiou para uma luta?

— Muitos me desafiaram, mas sou proibido pela FLIC de me exibir fora dos campeonatos oficiais.

Divirta-se e aprenda com o livro O humor do português de JOÃO BATISTA GOMES.

São 30 histórias hilárias, criadas a partir das ambigüidades e dos trocadilhos comuns na língua cotidiana. A narrativa flui em primeiro plano, dando origem ao viés gramatical que, dissolvido no contexto, é imediatamente apreendido pelo leitor. “A diferença entre o certo e o errado casa-se com o riso, fazendo emergir a imaginação criativa”.

Cada crônica vem acompanhadadas explicações gramaticais necessárias. O livro contém mais de 350 lições de português de fácil aplicação no dia-a-dia

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