Caratê Zeca-Kid II
Quando Agenor
chega a casa, Zeca-Gavião já o espera.
— Que papelão,
professor! Que papelão!
— Concordo com
você, Zeca. Que papelão o seu. Estou decepcionado. Aliás, muitas pessoas estão
desapontadas com a palhaçada que você fez.
— Você
decepcionado? Essa é boa! Eu pago o maior mico por sua causa, e você se sente
frustrado? Imagine-se no meu lugar, professor.
— Isso não, Zeca.
Imaginar-me executando aquela dança à frente de toda aquela gente? Foi a coisa
mais ridícula que já presenciei. Ridícula e hilária. De onde você tirou aquele
ritual, Zeca?
— Freqüentei,
quando adolescente, um curso de defesa pessoal semelhante ao caratê. Chama-se
tae kwon do. É uma arte marcial coreana. Significa caminho do punho cerrado.
— Acho que o nome
correto para o ritual que você exibiu é “sai que eu dou”. Ou então “ai que eu
dou”. Aquele grito efeminado no fim...
— E você queria
que eu fizesse o quê? Até nome de federação você inventou: “Sou proibido pela
FLIC — Federação dos Lutadores Internacionais de Caratê...”
— E por que você
não desistiu, criatura? Fiquei surpreso quando você iniciou aquela dança.
— Fiquei
empolgado. Essa é a verdade. A veracidade com que você me apresentou... Aqueles
aplausos... Por um momento, virei um astro.
— Astro não, Zeca.
Estrela.
— E estrela
candente: minha ascensão durou pouco.
— Candente não,
Zeca. Estrela cadente.
— E não é a mesma
coisa não, professor?
— Cadente é aquilo
que cai ou está caindo; combina com estrela e, portanto, com você. Candente é o
que está em brasa.
— Agora me
responda, professor. De onde você tirou a idéia de que sei lutar caratê? Pior:
desde quando você é professor de caratê?
— Muita gente,
aqui no bairro, sabe... melhor, pensa que sou professor de caratê.
— Sei que todos o
chamam de professor...
— Pois é. Certa
vez, num fim de semana, enquanto comprava refrigerante em um barzinho lotado
aqui do bairro, alguém quis matar a curiosidade e me perguntou: “Desculpe a
indiscreção...”
— Indiscreção? Não
seria “Desculpe-me a indiscrição”?
— Estou
representando a fala do sujeito lá do barzinho, Zeca. Você não quer que ele fale
tudo corretamente. Ou quer?
— Tudo bem.
Continue.
— Pois é. O
indivíduo perguntou: “Você é professor de quê?” Impulsivamente, respondi: “De
caratê”. Todos me olharam com desconfiança e admiração. Esta afugentou aquela
quando...
— Esta? Aquela?
Que linguagem esquisita é essa? Você não está escrevendo: está falando.
— A admiração
afugentou a desconfiança quando um outro sujeito perguntou: “Vem cá, professor.
Não me queira mal, mas esse negócio de lutar caratê dá dinheiro? Vejo que
você... perdão, o senhor, tem carro, sítio...” Respondi que, no meu caso, a
grana vinha principalmente de alguns prêmios internacionais. Vendo que a platéia
me tributava respeito, fiz algo análogo ao que você fez na feira.
— Começou a
executar uma dança de exibição.
— Não, não, Zeca.
Algo pior.
— Já sei: saiu
correndo do barzinho.
— Pior que isso:
empolguei-me e espichei a mentira. Falei de prêmios conquistados no Brasil, nos
Estados Unidos, no Japão...
— No Japão? Você
ganhando campeonato de caratê no Japão?
— Pois é, Zeca. A
que ponto nos leva a vanglória.
— Vanglória? Isso
é o quê? Marca de cachaça?
— Vanglória é
vaidade exagerada, Zeca.
— E depois,
professor? O que aconteceu?
— A notícia
espalhou-se pelo bairro. As pessoas passaram a me olhar com temor e respeito. Os
assaltantes passaram a evitar-me. De certa forma, saí lucrando.
— Ninguém o
desafiou para uma luta?
— Muitos me
desafiaram, mas sou proibido pela FLIC de me exibir fora dos campeonatos
oficiais.
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